A TRANSFORMAÇÃO DAS CORES
NEGATIVO DE RICARDO REIS: AGE DE CARVALHO
Deyse Cantuária – Universidade do Estado do Pará
He is dead and gone, lady,
He is dead and gone,
At his head a grass green turf,
At his heels a stone.
William Shakespeare, Hamlet.
Esta primeira leitura intertextual parte da recorrência de Fernando Pessoa e Max Martins em Age de Carvalho. Para fundamentar a análise dos poemas, utilizam-se passagens de Shakespeare e Mário Faustino.
De início, pretende-se ler nos poemas as formas como se expressam dois escritores de épocas e espaços bastante distintos: Fernando Pessoa, na pele do heterônimo Ricardo Reis, e Age de Carvalho. A seguir, a leitura procurará demonstrar como essas duas formas de construção poética se espelham uma na outra e, ao se refletirem, deslocam a ordem dos sentidos que revelam.
Esse deslocamento ultrapassa os limites da simples alusão de uma cena em outra descrita no poema. Em primeira instância, Age de Carvalho se afasta da leitura emitida pelo poema de Ricardo Reis para criar imagens diversas – mas que, criando vida própria, simultaneamente o ajudam a evocar outros poetas para compor o entretecido de vozes no qual se transforma seu próprio poema.
Negativo de Ricardo Reis
Bocas roxas (não
de vinho),
sobre a testa
branca cresce a erva
Não te chamo Lídia:
nada sabemos sobre
o rio das coisas
A leitura desse texto poderia se transformar em um labirinto sem saída, não fosse a invocação do poeta que, mais que um interlocutor para Age de Carvalho, é a voz que ressoa por trás desse poema. “Negativo de Ricardo Reis” surge de um poema de Max Martins, “O Mal-Amado”. Mas de que forma isso ocorre? Como clarear esse terreno fértil de leituras de poetas e poemas, na medida em que esse poema, para ser lido, além da de Max Martins, clama por outras vozes, como Pessoa, Faustino e Shakespeare?
Pessoa, como poeta modernista, absolutamente coerente, buscou o exagero da objetividade, ou seja, a fragmentação da persona poética e o velamento de sua poesia. Assim, a análise partirá, aqui, do próprio heterônimo-autor, Ricardo Reis.
O exemplo mais citado pela crítica da dicção de Ricardo Reis encontra-se na ode “Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo”. Ali, o poeta declara o sabor orgíaco do vinho como um elemento capaz de apagar o gosto das horas.
Sobre a influência horaciana nos textos de Reis, vislumbrada claramente na postura reflexiva diante da vida e na severidade com a qual ele apazigua as angústias metafísicas que afligem a consciência do poeta, vale citar um comentário de Benedito Nunes:
Seja a vida sono ou sonho, esse pagão da decadência, espectador de si mesmo, procura identificar-se com a forma do lirismo antigo, exemplarmente horaciana, em que a subjetividade do poeta, ainda não se tendo firmado como centro da vida universal, permite que a experiência pessoal, expressada poeticamente, aproxime-se, sob a disciplina do pensamento, da narração objetiva dos estados de consciência, levemente matizados, sem grandes contrastes, e em harmonia com as coisas exteriores. Severo narro. Quando sinto, penso/palavras são idéias.[1]
No desfiar da teia discursiva iniciada por Ricardo Reis, teia de poetas que se lêem mutuamente, encontra-se Age de Carvalho. Esse manipulador do verso curto, escrito sempre no limite entre a linguagem e o silêncio – de onde a agudez de seus poemas. Uma agudez tal que parece abismar-se diante do material de que é feita a poesia.
A consciência da realidade ou da força da literatura como representação da realidade é capaz de trazer à tona a marca do leitor no autor Age de Carvalho, abrindo janelas para o aparecimento de outras vozes que se fazem ouvir em ressonância nos poemas em questão. Uma voz da qual emanam muitas outras vozes, e que pode ser considerada uma das maiores influências na literatura mundial dos últimos séculos, é a voz de William Shakespeare.
Sobre a leitura crítica de Shakespeare fala Harold Bloom em O Cânone Ocidental:
Encarar a grandeza quando lemos é um processo íntimo e dispendioso, e jamais esteve em grande voga crítica. Agora, mais que nunca, está fora de moda, quando a liberdade e solidão é condenada como politicamente incorreta e não adequada à nossa sociedade angustiada. A grandeza na literatura ocidental centra-se em Shakespeare, que se tornou a pedra de toque para todos os que vêm antes e depois dele, sejam dramaturgos, poetas líricos ou contadores de histórias.[2]
E é exatamente no ponto em que Age extrapola a leitura de Pessoa para entrar em Shakespeare, fazendo ecoar uma cena bastante específica de Hamlet em seu texto, que se observa a leitura de dois poetas da geração anterior à sua em Belém do Pará: Mário Faustino e Max Martins.
Mário Faustino, leitor e tradutor de sonetos de W. Shakespeare, conjuga, em seu poema “Solilóquio”, a sina do jovem Hamlet à náusea que o afligia: “Cantar aos ratos minha, nossa náusea/De anjos e deuses”. E, em “Balada”, (em memória do jovem suicida) Hamlet é citado diretamente como um poeta.
Max Martins, por sua vez discípulo de Faustino, no poema “O Mal-Amado” do livro H’Era, absorve a temática de Hamlet para sua poesia, sob outro enfoque. A afinidade temática com Faustino e a impossibilidade do amor surgem da boca da personagem feminina da tragédia, Ofélia, e não do seu protagonista. (“E vinha do mar um vento/pesaroso e boquiaberto;/um secreto ar de luto,/adeus de pássaro em fuga/ou de Ofélia enlouquecendo”).
O poema de Max é o primeiro negativo a ser escrito. Em meio a “cinzas e prantos”, é hora do “homem que se curva” (ao invés da mulher, Ofélia) e da “mulher que se renega”. A Ofélia do poeta se apresenta como aquela que deixará sua marca no homem amado: “no teu peito o meu espinho/misturado à minha mágoa,/minha lágrima no teu lenço,/minha flor no teu destino”. E na continuação do poema se transformará em uma mulher movida pelo desejo carnal, forte e cruel: “E suas mãos/(...)/Eram quentes, traiçoeiras, /que queimavam no tocar” – uma personagem totalmente reinterpretada e que se opõe à Ofélia de Shakespeare.
Vindo daí, o que parecia ser uma simples citação de Fernando Pessoa a ser recriada por Age de Carvalho, na verdade, é o eco da canção entoada por Ofélia no ato IV, cena V de Hamlet[3]:
Já morreu, senhora,
Já se foi embora.
A sua cabeça
Verde tufo de erva,
Aos pés uma pedra[4]
A descrição do pai morto lembra o fato de ser ele a personagem que impunha a Ofélia tomar consciência da “insanidade” de Hamlet após o encontro amoroso. Em cena posterior, Hamlet, inadvertidamente, assassina o pai de Ofélia – em um gesto de violência absoluta, ele a aproxima de sua própria loucura, e a transforma como que em um eco dele mesmo.
Partindo da cantiga da jovem Ofélia em Hamlet, passa-se pela Ode de Ricardo Reis, até chegar ao “Negativo de Ricardo Reis”, de Age de Carvalho. Mas o que têm em comum os três textos? Uma repetição de palavras que, mesmo em línguas diferentes, trazem sentidos que remetem ao nascer e ao morrer. Mais que isso, o tema recorrente nos poemas em questão trata da morte como o único espaço possível para o nascimento da palavra, ou para o florescer da consciência do poeta.
“Bocas roxas de vinho” fala do corpo abandonado, que sabe dos desejos humanos, mas prefere a força da palavra morta, imutável e singular, capaz de descrever o vazio do mundo na composição do poema. A representação do interior da linguagem com o foco voltado para a forma de compor e articular a voz do poeta é uma temática recorrente na poesia moderna, como se pode observar a partir do 6o verso, “Eternamente inscritos...”, e nos dois versos seguintes.
A segunda estrofe inicia com a descrição da cena, ou quadro, como prefere chamar o poeta, na qual a paralisia e a mudez serão os elementos capazes de inscrevê-los para sempre “Na consciência dos deuses”. Essa imagem antecipa a negativa descrita nos versos posteriores, 9 e 10, onde é melhor viver estático e silencioso a ter de participar da vida comum: “como os homens a vivem/cheia da negra poeira/que erguem das estradas”.
Após a negação do mundo dos homens, o poeta volta a afirmar sua opção pela temática dos deuses, um tópos recorrente em toda sua obra. Pois eles são os únicos capazes de demover com o seu exemplo “... aqueles/Que nada mais pretendem/Que ir no rio das coisas...”
As odes de Ricardo Reis são o reflexo de uma postura poética de quem se pretende sábio por se contentar com o espetáculo do mundo.
Em “Negativo de Ricardo Reis”, as “Bocas roxas, que não de vinho” remetem à imagem das “bocas dos mortos” – bocas de onde sairiam palavras que, não valendo a pena serem ditas, melhor que silenciem para sempre. Especificamente neste verso, observa-se também, em Age, a opção contrária à de Ricardo Reis, ou seja, a de dizer não ao amortecimento da dor ocasionado pelo entorpecimento do vinho e assumir a racionalidade da morte em lugar do silêncio necessário à aprovação dos deuses buscada no poema anterior.
A conseqüência dessa negação manifesta-se claramente com o correr da leitura: os versos 3 e 4, na segunda parte do poema, parecem contaminados pela idéia de morte do corpo físico. Então, nada mais natural que “sobre a testa branca” cresça a erva – esses pequenos arbustos ou ervas daninhas que medram sobre os túmulos e são muito comuns nos cemitérios...
No final do poema, não é a intenção de Age de Carvalho convocar ou nomear a mulher, a amada ou quem quer que seja Lídia. Numa atitude mais radical de ceticismo diante da vida, ele apela para a consciência absoluta de não saber, e esse verbo está no plural “sabemos”.
Nada sabem sobre o quê? Nada sabem sobre o “exemplo dos deuses”, e em relação a ir “no rio das coisas”. Para Age de Carvalho, seria impossível deixar-se levar pelo comando dos deuses a ponto de segui-los até o “rio das coisas”. Simplesmente porque, no seu poema, não existem os que nada pretendem, nem mesmo os deuses para seguir, e o “rio das coisas” não passa de um outro movimento poético. Em seu texto há somente a serenidade do percurso daqueles que não se deixam iludir, mesmo que pelos limites da palavra.
Uma das grandes possibilidades, no exercício dos estudos comparativos em textos literários, incide na observação do processo dialógico travado pelos autores pesquisados. O lugar do discurso do autor é dado pelas diferenças enunciativas que chamam a atenção. São elas que, de tal forma, atam possibilidades de interpretação capazes de iluminar um único verso e este, ao se metamorfosear na passagem de um poema a outro, cria uma imagem complexa o bastante para evocar estudos posteriores.
O principal deslocamento de imagens desses textos é a “testa branca sob rosas”, de Ricardo Reis, e “sobre a testa branca cresce a erva” de Age de Carvalho. Nota-se claramente uma relação especular entre eles; a diferença das posições ativou a leitura em negativo dos textos.
Em “Negativo de Ricardo Reis”, Age opera nos intervalos do primeiro poema – melhor dizendo, revela o que poderia ser lido nas entrelinhas do discurso de Reis, fazendo da negação uma outra forma de dizer o que não estava explicitamente dito. Da síntese invertida do primeiro poema, o que se observa mais parece um espectro dele próprio.
O termo negativo, em fotografia, tem como explicação técnica, em relação ao material, o fato de ser empregado exclusivamente na revelação de fotos em preto e branco. Então o negativo de uma foto P/B é a transformação ou inversão das cores utilizadas na chapa no fundo. O que era branco torna-se preto e, no contorno das imagens, conversamente, o que era preto vira branco.
Tal como um negativo fotográfico que revela o duplo da foto, “Negativo de Ricardo Reis” potencializa o conteúdo da ode de Ricardo Reis. Ao transformar suas cores e ao ampliar o que descreve, mesmo que indiretamente, atribui maior grandeza ao que fora “dito”, retirando do em torno toda a força da imagem e poder de velar a palavra. Não no sentido de dizer mais ou menos que o outro, mas de, na diferença, atribuir mais força ao que se diz.
[1] NUNES, Benedito. O dorso do tigre. 2a. Ed. São Paulo: Perspectiva, 1976. p. 226.
[2] BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Tradução por Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. p. 479.
[3] SHAKESPEARE, William. The complete works. New York: Gramercy, 1998. p. 1100.
[4]SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução por F. Carlos de Almeida Cunha. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 230.